O fantasma da madrugada

No meu tempo de faculdade, eu costumava fazer uma caminhada bem cedo, às três ou quatro horas da manhã. Exatamente ao lado da minha casa havia uma pequena rua com um bambuzal muito escuro… E aquele era meu local preferido porque era muito raro encontrar alguém ali. Apenas o vigia da casa de um homem rico costumava me ver. Mas um dia – isto talvez seja o que você chamaria de estar fora do controle – eu estava correndo ao longo da rua quando tive uma idéia de que seria bom se eu corresse de costas, para trás. Na Índia existe uma superstição de que os fantasmas andam de costas, mas eu tinha me esquecido disso completamente, e, de qualquer maneira, não havia pessoa alguma na rua… Assim, eu comecei a correr para trás. Eu estava curtindo muito aquilo e era uma manhã bastante fresca.

Então aconteceu do leiteiro me ver… As pessoas costumavam trazer leite dos pequenos povoados e ele tinha vindo um pouco mais cedo do que o usual, por isto ele nunca tinha me visto anteriormente. Carregando dois baldes de leite, ele de repente me viu. Eu devia estar escondido na sombra dos bambus e quando ele chegou mais próximo, onde havia um pequeno facho de luz, eu de repente apareci, correndo de costas. Ele gritou, ‘Meu Deus’, largou os baldes e saiu correndo.

Eu ainda não tinha percebido que ele estava com medo de mim. Eu pensei que ele estava com medo de alguma outra coisa. Assim, eu peguei os seus dois baldes, embora o leite já estivesse derramado… Eu pensei que pelo menos deveria lhe devolver os dois baldes, mesmo com o leite já derramado, por isto eu corri atrás dele. Ao me ver aproximando… Eu nunca vi alguém correr tão depressa. Ele poderia ser um campeão do mundo em qualquer tipo de corrida. Eu estava muito surpreso e comecei a gritar, ‘Espere!’ Ele olhava para trás sem dizer coisa alguma.

Toda a cena estava sendo acompanhada pelo porteiro do homem rico. Ele me disse, ‘Você vai matá-lo.’

Eu disse, ‘Eu só quero lhe devolver os baldes.’

Ele disse, ‘Deixe os baldes comigo. Quando o sol nascer, ele voltará. Mas não faça essas coisas. Algumas vezes você me dá medo também, mas eu já o conheço… Por anos eu tenho visto você fazer todo tipo de coisas estranhas nesta rua e algumas vezes eu sinto medo. Eu penso: quem sabe se é realmente você ou se é algum fantasma que está vindo atrás de mim? Algumas vezes eu tranco o portão e vou para dentro. Eu sempre mantenho minha arma carregada por causa de você.

Eu disse, ‘Você deveria entender uma coisa: se eu for um fantasma, a sua arma não terá qualquer utilidade. Você não consegue matar um fantasma com um tiro. Assim, jamais use a arma porque um fantasma não será afetado por ela, mas se um homem de verdade estiver ali, você poderá ser preso como assassino.

Ele disse, ‘Isto é verdade. Eu nunca tinha pensado em fantasmas… Mas estando justamente em frente de mim ele faria com que eu usasse todas as balas. Algumas vezes o medo é tão grande… Eu posso atirar em um homem e matá-lo’.

Eu disse, ‘Simplesmente olhe para mim: em primeiro lugar esteja certo se eu sou um homem verdadeiro ou um fantasma. Você pode fazer uso de sua arma e talvez seja apenas um fantasma que está persuadindo você.’

Ele disse, ‘O que…?’ E ele começou a colocar as balas de novo na sua arma.

Eu disse, ‘Fique com os dois baldes’.

Eu permaneci por quase seis meses naquela parte da cidade e todos os dias eu perguntava ao vigia, ‘Aquele homem já voltou?’

Ele dizia, ‘Ele não voltou. Estes dois baldes estão aqui esperando por ele. Mas eu acho que ele nunca mais vai voltar. Ou ele se foi para sempre ou ele ficou com tanto medo deste lugar que nunca mais ele retornará a esta rua. Eu tenho ficado atento e quando é a hora de trocar de turno, eu digo ao outro vigia que se alguém vier… E nós mantemos estes baldes em frente ao portão de modo que ele possa reconhecer que os seus baldes estão aqui. Mas seis meses se passaram e até agora nem sinal dele.’

Eu disse, ‘Isto é uma coisa muito estranha.’

Ele disse, “não há nada de estranho nisto. Você poderia ter matado qualquer um, aparecendo de repente no escuro. Por que você estava indo para trás? Eu sei que muita gente corre, mas correr para trás…’

Eu disse, ‘Eu sempre tenho corrido, mas eu me cansei de estar sempre indo para a frente. E só para variar, eu estava experimentando correr para trás.’ Eu nunca iria desconfiar que justamente naquele dia aquele idiota iria aparecer – ninguém jamais aparece naquela rua. Aquele homem deve ter espalhado um boato, e os boatos se espalham feito fogo selvagem. Mesmo o proprietário da casa onde eu estava morando me disse, ‘Pare de ir tão cedo para sua caminhada matinal, vá apenas após o sol ter nascido, porque um homem viu um fantasma.’

Eu lhe disse, ‘Quem lhe contou?’

Ele disse, ‘Minha esposa me contou e toda a vizinhança já sabe. Depois das oito horas da noite a rua fica deserta.’

Eu lhe disse, ‘Você pode não acreditar, mas não havia fantasma algum. Na verdade era eu quem estava correndo para trás…’

Ele disse, ‘Não tente me fazer de bobo.’

Eu lhe disse, ‘Você pode vir comigo. Às três horas da manhã não existe ninguém.

Ele disse, ‘Por que eu deveria correr o risco? Mas uma coisa é certa: se você não parar de ir, você terá que deixar a minha casa. Você não poderá morar lá.’

Eu disse, ‘Isto é muito estranho. Mesmo que a rua estivesse cheia de fantasmas, por que você deveria insistir em que eu deixasse a sua casa? Você não pode me forçar. Eu pago o aluguel…Você tem me dado um recibo. E num tribunal você não poderá alegar que este homem vai para uma rua onde os fantasmas correm. Eu acho que nenhum tribunal vai aceitar este tipo de alegação.’

Ele disse, ‘Você quer dizer que vai me levar ao tribunal? Se você é tão insistente, pode continuar morando nesta casa. Eu vou vendê-la. Eu deixarei a casa.’

‘Mas,’ eu disse, ‘Eu não sou um fantasma.’

Ele disse, ‘Isto eu sei. Mas você se mistura com fantasmas e um dia, algum deles poderá segui-lo até a casa e eu sou um homem com esposa e filhos. Eu não quero correr qualquer risco.’

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Bosco Carvalho

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