Mês: dezembro 2020

  • Educação sexual na escola: precisamos falar sobre isso

    Educação sexual na escola: precisamos falar sobre isso

    A educação sexual, em âmbito escolar, é algo que causa controvérsia, principalmente nos últimos anos. Entre os motivos estão a propagação de notícias falsas ou descontextualizadas e a falta de esclarecimento das pessoas sobre o que realmente seja a educação sexual e sua importância na vida das crianças.

    Infelizmente, vivemos em um país com alto índice de abuso sexual de menores, temos vários internamentos em hospitais devido a isso, e muitas vezes acabam resultando em morte. São crianças e adolescentes que sofrem diariamente essa violência, dos seis meses aos 17 anos de idade.

    Dados do disque denúncias de 2019 apontaram que em mais de 70% dos casos, esses atos são praticados por familiares e em suas próprias casas. Diante desse cenário, viu-se crescer o número de denúncias durante a pandemia, em março de 2020, com um aumento de 85%, de 11.232 em março de 2019 para 20.771 em março deste ano. Segundo o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, as denúncias em abril aumentaram em relação ao mesmo período que o ano passado, mas diminuíram em relação a março, e a hipótese é que devido à restrição maior por conta da pandemia, muitas crianças e adolescentes não estão tendo a oportunidade de denunciarem seus abusadores.

    Contudo, a questão de denúncia exige certo conhecimento de direitos por parte da criança, nível de maturidade e acesso a informações, o que não acontece com grande parte delas, por isso, esses números acabam sendo distantes da realidade, existindo, portanto, muita subnotificação quando se trata do assunto.

    É completamente impossível negar o papel da escola enquanto instância importante e crucial para a educação sexual, principalmente no sentido de prevenção aos abusos. Nesse intuito, é importante salientar que educação sexual não é incentivo à erotização e muito menos ensinar à criança sobre atos sexuais, como muita gente pensa.

    Educação sexual diz respeito à orientação sobre as partes do corpo, sabendo nomeá-las, ensinando limites, que ninguém pode tocá-las sem consentimento, que não deve ser forçada a fazer o que não queira, auxiliar na questão da autoestima e do autocuidado, ter abertura para falar sobre seus sentimentos, conversar com as crianças sobre os caminhos para solicitar ajuda caso seja necessário, saber instruí-la a diferenciar toques de abuso de toques de afeto. Enfim, é ensiná-la a respeitar seu próprio corpo e saber se proteger.

    E é claro, no contexto escolar é necessário utilizar de ferramentas e materiais didáticos apropriados à cada faixa etária para que a criança consiga compreender as informações. Um material bastante interessante é da autora Caroline Arcari, que têm alguns personagens chamados que ajudam a entender todo esse processo de maneira leve e lúdica, também o canal de histórias da “Fafá conta”, no YouTube, que contém materiais sobre o assunto.

    Além disso, se faz necessário um fortalecimento dos órgãos protetores das crianças como Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), os Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e os próprios conselhos tutelares. É preciso mais investimento para que sejam criados projetos e parcerias com as escolas, famílias e comunidades, no intuito de combater a violência sexual e principalmente um trabalho para à prevenção de abusos. Afinal, a responsabilidade de proteção de nossas crianças e adolescentes é de toda a sociedade.

    * Vanessa Queirós Alves é mestre em Educação e professora da Escola Superior de Educação da Uninter.

    Créditos do Fotógrafo: Pixabay

  • Quando deus era uma mulher: divindades femininas da antiguidade

    Quando deus era uma mulher: divindades femininas da antiguidade

    Houve um tempo em que as orações humanas eram dirigidas à Deusa Mãe, como uma divindade de divindades que dominava um mundo de sociedades agrícolas.

    Os diferentes cultos populares às Deusas tinham sido organizados através de um primordial e elementar: o poder de dar vida. Deste ponto de vista, a fertilidade da terra e a fertilidade feminina são uma e a mesma para as sociedades primitivas, dando respostas a perguntas existenciais sobre o mistério da criação.

    “As culturas mais antigas da humanidade chegaram à conclusão de que a vida surgiu, perdeu-se e reapareceu em um ciclo incessante (como as estações do ano, as diferentes fases da lua, a morte e o nascimento as fizeram compreender…).
    Elas entenderam que todos os elementos que compõem a natureza sem exceção (plantas, árvores, rochas, montanhas, água, vento, sol, lua, estrelas, mar…) eram seres vivos como os próprios seres humanos, já que todos esses elementos participavam igualmente do ciclo da vida, da morte e da regeneração. No âmbito deste pensamento animista, eles concluíram que a natureza como um todo era uma mulher/mãe que gerava vida e criaram a grande metáfora que tem marcado o pensamento dos seres humanos até hoje. Hoje está plenamente documentado que esta metáfora da natureza/mulher é evidente em toda a arte neolítica através de milhares e milhares de imagens”.

    – Josu Naberan, “La Vuelta de Sugaar”. (O Retorno de Sugaar, em tradução livre, ainda não traduzido para o português.)

    A Vênus de Willendorf
    A Vênus de Willendorf

    A Vênus de Willendorf representa a fertilidade e data do Período Neolítico. Esta representação da grande deusa mãe é uma das imagens associadas a estes antigos cultos, mas há muitas mais. Preparamos em nosso Facebook um álbum com imagens impressionantes desta religiosidade ancestral relacionada com o feminino.

    A Grande Deusa ou A Deusa Mãe, chamada com infinitos nomes locais – mas todos referentes à divindade feminina que criou tudo – estava presente quase que exclusivamente na mente mitológica dos seres humanos de 30.000 a 3000 a.C. Alguns desses nomes são:

    Na América pré-colombiana: A Pachamama Andina; Mapu para os Mapuche; Ixchel para os Maias; Coatlicue para os Astecas.
    Na África: a deusa Mawu, Ísis no Egito, cujo culto se espalhou pelo mundo greco-romano.
    Na Ásia: Ninursague na Suméria. Arina para os Hititas. Hepat na Babilônia. Isthar na Mesopotâmia. Shakti, a energia feminina deificada do budismo.
    Na Europa: Reia na Creta. Kubaba, na Turquia. Cibele na Grécia…

    Na Mesopotâmia, a sexualidade era um ato religioso. No berço das civilizações pensava-se que se a vagina era a “porta de saída” neste mundo, era também a porta de volta ao infinito e através do ato sexual, tanto homens como mulheres alcançariam a transcendência e criariam pontes com a Deusa.

    A deusa Isthar, uma das deusas mais importantes para o povo sumério, representava o sexo, a fertilidade e o amor. Seu culto poderia ter envolvido rituais sexuais nos templos erguidos em sua homenagem.

    Em um processo que levou milhares de anos, as culturas pagãs e politeístas começaram a dar mais importância aos deuses guerreiros e masculinos que removeram a Grande Deusa.

    A Deusa da Noite

    O judaísmo é a primeira religião monoteísta que atribui a Javé a capacidade generativa da Deusa (criar e dar vida) sendo este o primeiro Deus que subtrai o poder feminino para depositá-lo no outro lado.

    Tlazoltéotl, a Deusa dos Aztecas

    As religiões monoteístas colocam o poder em uma única entidade todo-poderosa e onipresente. Dar a este único deus uma forma andrógina era indispensável para reforçar a supremacia do homem sobre a mulher.
    Conceber religiões monoteístas com um único deus masculino, serviu às novas civilizações para justificar o direito à autoridade masculina absoluta sobre as mulheres e o resto dos seres vivos do planeta… assim “na terra como no céu”… para governar o mundo.

    Este processo de masculinização dos deuses, foi um processo longo e difícil, em uma época em que os poderes religiosos exerciam o poder moral, político e judicial das sociedades. Este longo processo, no qual o poder da deusa deixou de manter o equilíbrio entre o masculino e o feminino, foi o momento em que o imaginário coletivo tirou o poder e as possibilidades das mulheres.

    Sobre a mitologia ancestral, sobre as deusas mãe e os estudos feministas que estão sendo realizados em torno dela, quero dedicar alguns posts neste blog.

    Como material complementar a este post, preparamos um álbum no Facebook com imagens de representações da Deusa ao longo da história, que expandiremos gradualmente com novas contribuições.

    E esta playlist com músicas de mulheres do século XXI que nos aproximam do poder mítico feminino. Acorde a deusa em você!

    Escola de Atenas

    Laura Fresneda Moreno, escreveu e publicou este artigo no site “Escuela de Ateneas”. Foi traduzido do espanhol por mim e publicado aqui com a autorização expressa da autora.

Verified by MonsterInsights